O PESADELO AMERICANO.
Estava
pensando em postar algo leve, descontraído e até já tinha criado uma parte do
texto, mas tive que mudar de ideia. Ontem estava assistindo a série Sessão de
Terapia, inclusive estou gostando bastante dos episódios, então quando terminou
eu ia dormir, mas em seguida começou o documentário SICKO (S.O. S Saúde), do cineasta
Michael Moore e que fala sobre o sistema de saúde americano. O início foi muito
impactante, pois o filme começa mostrando um casal de meia idade, que estavam
se mudando para a casa da filha para morar, de favor, num quartinho. Eles
haviam pedido tudo, inclusive a casa, porque ele teve um problema cardíaco e
ela câncer e as despesas com tratamento simplesmente os levou à falência.
Eu
já tinha ouvido falar sobre famílias americanas que perdem tudo devido a
tratamentos médicos, mas assistir ao documentário foi bem chocante. Moore
relata que assim que divulgou que faria o filme, recebeu em dois dias milhares
de e-mails de pessoas contando os seus dramas, ou porque não tem seguro saúde, ou
porque o seguro não quis pagar as despesas médicas. Entre os e-mails ele entrevistou
certa moça que sofre de depressão porque seu trabalho é justamente barrar os
pedidos de inscrição nos seguros de saúde. A maioria das pessoas é barrada, por
motivos banais como ser muito magro, muito gordo, ter tido um caso isolado de
doença no passado, enfim, qualquer coisa serve como motivo para barrar pessoas
que eles considerem que podem ficar doentes no futuro. Segundo a empregada do
seguro saúde, ela até mesmo prefere ser rude com as pessoas para não se envolver
emocionalmente.
Entre
as entrevistas do documentário, um chamou minha atenção: ele trabalhou por anos
numa seguradora de saúde, e seu trabalho era encontrar erros de cadastro, entre
outros, e invalidar os contratos para que a seguradora pudesse ligar para os
médicos solicitando o dinheiro de volta e recomendando que a conta fosse
cobrada do paciente, já que ele não era um segurado. Outro caso que me chamou
atenção foi o de uma jovem de 26 anos que estava com câncer de cólon e embora
ela tivesse um seguro de saúde, seu tratamento foi recusado, pois ele era muito
jovem para ter a doença e o plano não pagava por tratamentos experimentais.
Como assim? Ouvir aquilo foi um absurdo. A moça mencionada teve que ir para o
Canadá e fingir ser residente há alguns meses para tentar obter o tratamento.
Fiquei pensando por que o sistema de saúde americana é assim?
No
documentário, Moore mostrou que tudo começou no governo de Nixon. Ele e Edgar
Kaiser chegaram à conclusão que a única forma de reduzir os problemas de
dinheiro do país era cortar gastos na saúde. Fizerem uma campanha mostrando que
a saúde universal tirava dos cidadãos seu direito de escolha ao médico de confiança,
que a saúde universal estava ligada ao socialismo, enfim fizeram uma campanha
ressaltando os benefícios do seguro de saúde. O resultado foi à aprovação do
sistema de saúde que vigora até hoje, pessoas sem atendimento médico, e
seguradoras de saúde com lucros bilionários. Uma tentativa de fazer uma reforma
do governo aconteceu em 1993, no governo de Bill Clinton, mas a pressão das
seguradoras nos parlamentares, a maioria com campanhas patrocinadas pela
indústria dos seguros de saúde, fez com que a reforma não fosse aprovada.
Ver
este filme me fez constatar que o sonho americano só acontece para 250 milhões
de segurados que na verdade para todo o restante da população o que resta é
rezar para não ficarem doentes, ou como alguns fazem costurar seus corpos em
casa mesmo.
Outra
reflexão que não pude evitar foi feita ao comparar com o sistema de saúde
brasileira. É claro que temos muitos problemas de filas de espera, falta de
médicos, pouca estrutura, mas, por outro lado, temos o melhor tratamento e AIDS
e prevenção com vacinas do mundo. Não sei ainda como me sinto em relação a esta
comparação, o que sei é que nem sempre o sonho que é vendido pela mídia
corresponde à verdade.
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