quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O PESADELO AMERICANO.

Estava pensando em postar algo leve, descontraído e até já tinha criado uma parte do texto, mas tive que mudar de ideia. Ontem estava assistindo a série Sessão de Terapia, inclusive estou gostando bastante dos episódios, então quando terminou eu ia dormir, mas em seguida começou o documentário SICKO (S.O. S Saúde), do cineasta Michael Moore e que fala sobre o sistema de saúde americano. O início foi muito impactante, pois o filme começa mostrando um casal de meia idade, que estavam se mudando para a casa da filha para morar, de favor, num quartinho. Eles haviam pedido tudo, inclusive a casa, porque ele teve um problema cardíaco e ela câncer e as despesas com tratamento simplesmente os levou à falência.
Eu já tinha ouvido falar sobre famílias americanas que perdem tudo devido a tratamentos médicos, mas assistir ao documentário foi bem chocante. Moore relata que assim que divulgou que faria o filme, recebeu em dois dias milhares de e-mails de pessoas contando os seus dramas, ou porque não tem seguro saúde, ou porque o seguro não quis pagar as despesas médicas. Entre os e-mails ele entrevistou certa moça que sofre de depressão porque seu trabalho é justamente barrar os pedidos de inscrição nos seguros de saúde. A maioria das pessoas é barrada, por motivos banais como ser muito magro, muito gordo, ter tido um caso isolado de doença no passado, enfim, qualquer coisa serve como motivo para barrar pessoas que eles considerem que podem ficar doentes no futuro. Segundo a empregada do seguro saúde, ela até mesmo prefere ser rude com as pessoas para não se envolver emocionalmente. 
Entre as entrevistas do documentário, um chamou minha atenção: ele trabalhou por anos numa seguradora de saúde, e seu trabalho era encontrar erros de cadastro, entre outros, e invalidar os contratos para que a seguradora pudesse ligar para os médicos solicitando o dinheiro de volta e recomendando que a conta fosse cobrada do paciente, já que ele não era um segurado. Outro caso que me chamou atenção foi o de uma jovem de 26 anos que estava com câncer de cólon e embora ela tivesse um seguro de saúde, seu tratamento foi recusado, pois ele era muito jovem para ter a doença e o plano não pagava por tratamentos experimentais. Como assim? Ouvir aquilo foi um absurdo. A moça mencionada teve que ir para o Canadá e fingir ser residente há alguns meses para tentar obter o tratamento. Fiquei pensando por que o sistema de saúde americana é assim?
No documentário, Moore mostrou que tudo começou no governo de Nixon. Ele e Edgar Kaiser chegaram à conclusão que a única forma de reduzir os problemas de dinheiro do país era cortar gastos na saúde. Fizerem uma campanha mostrando que a saúde universal tirava dos cidadãos seu direito de escolha ao médico de confiança, que a saúde universal estava ligada ao socialismo, enfim fizeram uma campanha ressaltando os benefícios do seguro de saúde. O resultado foi à aprovação do sistema de saúde que vigora até hoje, pessoas sem atendimento médico, e seguradoras de saúde com lucros bilionários. Uma tentativa de fazer uma reforma do governo aconteceu em 1993, no governo de Bill Clinton, mas a pressão das seguradoras nos parlamentares, a maioria com campanhas patrocinadas pela indústria dos seguros de saúde, fez com que a reforma não fosse aprovada.
Ver este filme me fez constatar que o sonho americano só acontece para 250 milhões de segurados que na verdade para todo o restante da população o que resta é rezar para não ficarem doentes, ou como alguns fazem costurar seus corpos em casa mesmo.
Outra reflexão que não pude evitar foi feita ao comparar com o sistema de saúde brasileira. É claro que temos muitos problemas de filas de espera, falta de médicos, pouca estrutura, mas, por outro lado, temos o melhor tratamento e AIDS e prevenção com vacinas do mundo. Não sei ainda como me sinto em relação a esta comparação, o que sei é que nem sempre o sonho que é vendido pela mídia corresponde à verdade.

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